Um bom exemplo chamado EAS Nelspruit

Entrevista completa a Ricardo Morais de Sousa, para a primeira Revista 1906_01


1. Como surgiu o convite para o projecto da EAS Nelspruit e para a coordenação das EAS na África do Sul?

Ricardo Morais de Sousa: O convite surgiu pela parte da Direção SCP-EAS, devido ao facto de à data (ano de 2016) estarem a ser dados os passos para a abertura da terceira EAS da África do Sul, na cidade de Nelspruit, e ser necessário, em primeiro lugar, um coordenador técnico que garantisse a aplicação das orientações metodológicas, em articulação com a Coordenação Técnica SCP-EAS e com o parceiro do Sporting Clube de Portugal, para este projecto nesta região. Em segundo lugar, pelo facto de também ser importante haver um coordenador técnico que desse apoio geral às estruturas das restantes EAS existentes no país, Rustenburg e Johannesburg. Em terceiro, o facto de já ter colaborado com o Sporting Clube de Portugal noutros projectos de âmbito internacional, na Índia e em Angola. E, em quarto lugar, por ter começado carreira de treinador (na altura estagiário) há mais de 10 anos precisamente no projecto Escolas Academia Sporting, mais concretamente na EAS de Alfena. Entretanto, foi também possível (ano de 2017) abrir uma quarta EAS em Pretória. E assim temos, com a devida ‘tradução’ para o inglês, a Sporting C.P. Soccer Academy: Rustenburg, Johannesburg, Nelspruit e Pretoria.

2.    Como é o dia-a-dia do coordenador da EAS Nelspruit?

RMS: O meu dia-a-dia é bastante denso, dada as responsabilidades e a paixão inerentes à função, bem como ao facto de estar neste país e nesta cidade com o propósito único de ajudar a desenvolver este(s) projecto(s). Assim sendo, tirando as horas de descanso nocturnas que qualquer pessoa tem e deve ter, as restantes horas são dedicadas quase exclusivamente a todas as acções e actividades que um projecto como este solicita e, sobretudo, devido à escassez de recursos humanos neste contexto em particular.

Grande parte do trabalho é ‘invisível’ e quase inquantificável; passa bastante por uma gestão administrativa, no escritório, por dezenas de telefonemas, mensagens de Whatsapp e e-mails, esclarecimentos vários sobre a academia e registo de jogadores, confirmações de pagamentos, marcação de jogos, apoio aos pais e encarregados de educação em reuniões individuais, actualizações de base de dados e de contactos, gestão das redes sociais, etc. Isto juntando à necessidade e importância de trabalhar também em equipa e de coordenar treinadores, dando-lhes formação e orientação, considerando os vários pontos das funções e deveres dos mesmos, observar treinos e fazer as devidas reflexões,; acumulando com o facto de também dar treinos a uma equipa com todas as responsabilidades inerentes. De forma mais resumida, eu diria que a primeira fase do dia é mais solitária, dedicada à área administrativa e de comunicação, e a segunda parte do dia é mais focada no trabalho em grupo e técnico.

3.       Quais são os principais objectivos da EAS?

RMS: Como principais objectivos, destaco, em primeiro lugar, a formação desportiva, com um modelo de formação e abordagens metodológicas em tudo semelhante à Academia Sporting, sendo a plataforma ideal para a promoção da prática desportiva das crianças e jovens, independentemente do seu género ou nível/habilidade inicial, nomeadamente no âmbito do ensino-aprendizagem e treino da modalidade de futebol. Em Nelspruit já temos um grupo alargado de jogadores que já transportam consigo esta formação diferenciadora de forma bastante visível. Mas não são só os jogadores como também os nossos treinadores (recrutados localmente), que se abriram a uma abordagem completamente diferente à que haviam aprendido/experienciado e que hoje contribuem de forma decisiva para a aproximação desta academia ao clube, e não só do ponto de vista técnico.

Como um segundo objectivo, destaco a expansão e fidelização, dando a conhecer, pela primeira vez em alguns casos ou reforçando noutros, a marca Sporting junto dos jovens jogadores e mesmo das famílias e amigos. É um grande desafio e tem sido uma grande conquista, sobretudo nesta parte do mundo, onde o valor do ensino e treino do futebol é muitas vezes subestimado, por esta modalidade gozar de uma “má reputação” e também, por serem destacadas ligas (e clubes) de outras proveniências da Europa (e não de Portugal).

Destacaria, em terceiro lugar, a descoberta de talentos como objectivo, pois mesmo com as condicionante referidas no ponto acima, existe um grande potencial e interesse pela prática do futebol por parte das crianças e jovens da comunidade local; o cenário é hoje mais favorável. Com o amadurecimento do projecto, através da dedicação, de persistência e de consistência, será revelado o que virá a seguir, pois recrutar jovens talentos para as equipas de competição/oficiais do Sporting Clube de Portugal, não sendo fácil, é possível.

4.       Qual a importância do projecto EAS para a comunidade local?

RMS: Relativamente à comunidade em Nelspruit, é importante referir que na sua maioria é representada por sul-africanos, naturalmente, mas a proximidade com Moçambique (100kms) não é, nem foi, negligenciada. Fazia falta um projecto de qualidade como o nosso nesta região, pelo alcance que a localização geográfica pode significar, tanto do ponto de vista da metodologia do treino, mas também organizacional. se o futebol goza (ou gozava) de má reputação, tem que ver exatamente como é organizado e, neste caso, com a falta de valor que é dado aos escalões de formação. Obviamente que isto depende dos projetos em si, mas também das pessoas que os levam a cabo. Não é por acaso que outras academias de grandes clubes europeus não sobreviveram na África do Sul. A EAS Nelspruit é diferenciadora a todos os níveis; os jogadores e as famílias sentem e vêem isso, mesmo que, sobretudo no início, não houvesse identificação com a marca Sporting por parte de muitos. Com o passar do tempo isso tem sido superado: temos de facto uma verdadeira ‘Família Sporting’ e o reconhecimento de entidades locais que se mostram receptivas para parcerias, eventos e outras actividades.

5.       Quantos atletas estão actualmente inscritos?

RMS: Neste momento contamos com cerca de 110 jogadores, com idades compreendidas entre os 4 e 18/19 anos, permitindo a constituição de pelo menos uma equipa por escalão, com a colaboração técnica de 4 treinadores, sendo um deles de guarda-redes e onde eu próprio também me incluo.

6.       Qual o mix de nacionalidades? Há portugueses ou descendentes?

RMS: Existe uma diversidade bastante visível relativamente às nacionalidades. Na sua maioria, os jogadores inscritos são, naturalmente, sul-africanos, mas também Portugueses, Moçambicanos, Indianos, Tanzanianos, Nigerianos, Nepaleses, Holandeses, Italianos, Americanos e Britânicos. A língua falada é o inglês.

7.       Já foram observados/referenciados alguns atletas pelo clube?

RMS: Sim, já tivemos a oportunidade de proporcionar momentos de observação de alguns jogadores nossos, inclusivamente um jogador participou numa semana de estágio na Academia Sporting, em Alcochete.

8.       Existe qualidade e talento localmente para podermos ver alguns atletas viajarem de Nelspruit até Alcochete nos próximos anos?

RMS: Creio que há fortes probabilidades de vários dos nossos jogadores continuarem o seu percurso na formação e ingressarem possivelmente no futebol sénior. Em primeiro lugar, porque muitos deles manifestam esse desejo e motivação; não que isso seja o suficiente, mas é uma predisposição a ter em consideração. Também porque vejo capacidades interessantes e um percurso ascendente e promissor que poderão levá-los a chegar a um nível ambicioso. É impossível prever com toda a certeza este cenário ou mesmo uma eventual mudança de Nelspruit para Alcochete, mesmo havendo certos indicadores em alguns casos que nos deixam optimistas nesse sentido.

9.       A presença das EAS na África do Sul é uma aposta ganha?

RMS: É uma aposta ganha, pois temos conquistado bastante terreno no que toca à confiança das pessoas, graças ao facto de estarmos focados em correspondermos a uma imagem de credibilidade, de rigor e de profissionalismo: essas são inclusivamente as palavras mais mencionadas pelos pais e encarregados de educação quando se referem à EAS de Nelspruit.

10.   É possível/consegue definir um perfil de jogador sul-africano? Quais as características mais vincadas e recorrentes nos atletas com quem trabalham?

RMS: Eu diria que o perfil do jogador sul-africano nestas idades de formação não difere muito do que vemos em outros locais ou até mesmo em Portugal, nem o potencial é assim tão distinto. Diria que os jogadores, de uma forma geral, estão pouco maduros nas questões de tomada de decisão, fruto de baixo entendimento do jogo (nas suas várias formas jogadas). Isto está naturalmente relacionado com a (de)formação anterior pela qual passaram onde porventura não existia sequer um currículo (tanto ao nível escolar como ao nível de clube), com treinadores pouco instruídos e com falta de ética na “profissão”. Por outro lado, mesmo com estas carências, nota-se que há muita vontade de jogar futebol e de aprender, que é um factor fundamental pois “só se ensina a quem quer ser ensinado” – a receptividade é muito grande na maior parte dos casos.

11.   O que é que os rapazes dizem e pensam do Sporting? Que tipo de ligação existe à casa mãe?

RMS: Os jogadores hoje em dia, passados três anos, sentem o clube e não se limitam apenas a gritar “Sporting!” antes dos nossos jogos. Conhecem os jogadores da equipa A de futebol e sabem estatísticas dos respectivos jogos, têm alguns jogadores como referências e inspiração e já sabem um pouco de história. Acompanham alguns jogos pela televisão, pois anunciamos sempre as transmissões televisivas e vamos divulgando alguns factos ou marcos importantes do clube através das reuniões de pais e mesmo nas nossas plataformas de comunicação (Whatsapp e Facebook). Preocupamo-nos em envolver toda esta “Sporting Family” com o clube; as viagens a Portugal, com as visitas ao estádio, museu e academia contribuíram imenso para este efeito também. E todos os fins-de-semana, em Nelspruit, vemos as famílias vestidas de verde e branco com a camisola oficial do clube. A ligação à casa mãe é evidente – existe uma ligação emocional e familiar que nem sempre é fácil de conseguir, mas que é a mais poderosa e valiosa de todas.

12.   Existem planos para alargar o projecto ao futebol feminino?

RMS: Na EAS nós sempre aceitámos jogadores do género feminino e chegámos a ter algumas jogadoras nos diferentes escalões. Estamos completamente abertos à possibilidade do futebol feminino, mas o contexto ainda não ajuda à criação de uma verdadeira equipa feminina. Não só não há muito interesse nesta região, como também não há propriamente competições ou clubes aparentemente dispostos a isso. Creio que há um trabalho a fazer fundamentalmente a nível escolar, que desconstrua certos preconceitos relativamente ao futebol neste ponto e noutros.

13.   Planos para o futuro? Regresso a Alcochete/Europa?

RMS: Para o curto e médio prazo os meus planos passam por esta EAS de Nelspruit, uma vez que assumi um compromisso, onde há ainda muito para desenvolver e com perspectivas interessantes para o futuro. Mesmo que isso signifique adiar alguns objectivos pessoais, para já, voltar definitivamente para Portugal não vejo como hipótese. Tal como num jogador da formação se levam anos a consolidar certas habilidades e/ou aspectos (se é que se pode falar em consolidação), para um projecto como este é também preciso tempo, passar pelas “dores de crescimento” e rodearmo-nos de pessoas que partilhem da mesma paixão, para que se possam observar resultados concretos e para que possamos, um dia, passar a responsabilidade a outros.

Se a capa e tema principal desta primeira edição da Revista 1906 é “#ADNJoãoRocha” e tudo aquilo que o Pavilhão transmite a quem o visita, a quem nele assiste o Sporting jogar e ganhar, em especial aos mais novos, é impossível não pensar num “ADN Sporting” que vai germinando, todos os dias, no seio de dezenas de novas “Famílias Sporting”, em sítios como Nelspruit e tantos outros, onde a presença do Sporting Clube de Portugal e o vestir das cores do clube é um grande motivo de orgulho para a pequenada, para as suas famílias e, por arrasto, para as próprias comunidades onde estão inseridos.

Faltará, talvez, ao próprio clube e através dos seus próprios meios, dar mais voz e mais destaque ao trabalho que se vai fazendo em todas as EAS, especialmente às de âmbito internacional. Talvez começar por actualizar o site dedicado ao projecto EAS (escolasacademia.sporting.pt) fosse um bom ponto de partida, dado que quem o visita hoje, apenas dará com a existência de 2 EAS na África do Sul.

Dizem (acho que dizemos todos) que o Facebook já não é bem o que era. Pois bem, mas foi através do Facebook que comecei a seguir e a acompanhar de perto (o quão possível, face aos mais de 11,000km que separam Lisboa de Nelspruit) o dia-a-dia desta EAS e do trabalho que o coordenador Ricardo, juntamente com o seu staff, vão desenvolvendo desde 2016.

Experimentem dar de caras, no vosso scrolldown diário de Facebook, com fotos de jovens e crianças a treinar e jogar com a verde e branca vestida, todos os fins-de-semana, nos mais diversos torneios regionais, com pais e treinadores de potes de fumo no ar antes do apito inicial (sim, acontece).

A sério, experimentem. É um bálsamo para a alma de qualquer Sportinguista.

A Revista 1906 agradece a disponibilidade demonstrada desde a primeira abordagem, quer pelo coordenador Ricardo de Sousa, quer pelo Sporting Clube de Portugal.

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